O Ubuntu eu sei, mas cadê o Kurumin?

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Às vezes as pessoas perguntam, quando me vêem falando de Linux, se estou falando em alguma outra língua, de sacanagem, mas eu respondo sorrindo, que sim, estou.

Todos vocês que chegaram agora, e assistem ou participam desse sucesso todo que o Ubuntu tem feito, com seu design caprichado e com o milionário sul-africano investindo pesado num sistema operacional que nos dá de graça, talvez não saibam que o Brasil já teve, praticamente e entre os entusiastas, um sistema para chamar de seu. Desenvolvido e pensado por quem fala e pensa em português (e talvez em alguma linguagem como Assemble e Fortran, mas isso já são outros quinhentos).

O Kurumin foi entre 2001 e 2004 um sucesso estapafúrdio entre os apaixonados por sistemas abertos. Herdou parte daqueles que ficaram orfãos do Conectiva Linux, uma grande empresa brasileira do setor (que na grande box da sua versão 10.0 vinha com adesivos dizendo “seja legal”, copie), mas ao invés de ter sido uma grande empresa ou um milionário, foi a mais falida das classes brasileiras que o produziu, um professor universitário, chamado Carlos Morimoto e outros professores, alunos e outras pessoas de fora da universidade federal do Paraná, em Curitiba.

Player de mídia amaroK rodando no Kurumin

O sistema, baseado no Knoppix, não se diferenciava tanto dos sistemas operacionais Linux da época em sua aparência, ao contrário, o grande “K” no lugar onde o Windows tem sua “janela/logo” e o mesmo menu de aplicações, configurações, arquivos e todo o blá, blá, blá que o Windows 95 praticamente institucionalizou. Sua grande diferença estava no desenvolvimento. A forma rápida com que novas versões surgiam, sempre prontas para a realidade brasileira, a internet discada, a parca e escassa internet WiFi e um predomínio de conexões com cabo, que marcavam a realidade do nosso país.

Havia ainda a paixão incessante do Morimoto em conseguir a cada versão, um sistema mais completo, mais plug and play e mais enxuto, fazendo-o mais leve a cada nova distribuição, mais rápido, para privilegiar o predomínio de máquinas antigas de nosso país, e um brilhante forum de bastidores, em português brasileiro.

Tal e qual o Ubuntu de Mark Shuttleworth vem do sul-africano “Sou o que sou pela somo do somos”, o Kurumin de Carlos Morimoto tinha seu nome estraído do tupi-guarani e significa “criança”ou “menino”, no sentido de infantil, em alusão ao fato do sistema ser mais simples e voltado para um público iniciante.

Oficialmente, ao contrário do Ubuntu que vê seu crescimento indetido, e já invadindo até as Smart-TV’s da Samsung, o Kurumin foi descontinuado em 2008, ironicamente, devido ao próprio sucesso do Ubuntu, que passou a dividir as falanges de fãs do sistema brasileiro e também fez com que se questionasse se o esforço para manter um sistema simples era válido, quando o Ubuntu já vinha justamente fazendo esse papel.

Infelizmente, o Kurumin padeceu, e o que vemos hoje é um Ubuntu muito maduro, mas que do ponto de vista de acessibilidade, principalmente para um país atrasado como o nosso, às vezes o Ubuntu parece exigente demais com as máquinas, máquinas que ainda rodam o velho Windows XP, ironicamente, não suportam a última versão do software livre, enquanto o Kurumin, em seus últimos releases, necessitava de nada menos que 53 Mb de RAM para iniciar e com um Pentium II e 128Mb de RAM, até assistir um filme em DivX de forma aceitável era possível.

Quem quiser saber mais, há ainda disponível nas boas livrarias, o livro Kurumin 7, de Carlos Morimoto, que serve como referência ao Kurumin e a outros softwares livres e a página Guia do Hardware, que ainda mantém versões disponíveis para download, ainda que elas dificilmente funcionem bem no mundo multicore de hoje em dia.

Vá em paz Kurumin, obrigado pela sua contribuição ao software livre brasileiro e vida longa ao Linux!

Emanuel Campos @emanuelcampos

http://fellowpalm.wordpress.com

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