O Linux na vida de uma escritora peregrina

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Olivia Maia é escritora, peregrina e usuária de linux para sua vida. Sua viagem começou em 2013, de São Paulo à Fortaleza, e de lá se estendeu ao sul do país, ao Uruguai, à Argentina e uma volta pelo Chile, tudo por terra! Nesse trajeto conheceu seu companheiro, que a levou a peregrinar pela Europa, Alemanha, Austria e um pedacinho do leste europeu, para finalmente voltar ao Brasil, e tem planos de no início de 2016 ter um endereço para se fixar.
Ao longo dessas viagens, ela trabalhou, claro, seja mais diretamente, como em albergues, hosteis e fazendas de orgânicos, como também não sossegou a veia escritora e leitora, lendo e escrevendo sempre que a inspiração e o tempo coincidiam. E para essa vida nômade que convidei a Olivia a nos contar um pouco de que acessórios ela levou com ela e como foi a vida na estrada com eles:

1) Olivia, você tinha um laptop linux tempos atras, para sua vida de escritora e administração do seu blog. Onde a Olivia Maia escreve hoje em dia? Notebook, caneta e papel, no celular? Qual sistema operacional? O linux se provou um companheiro ideal nesse momento de tantos updates e mudanças de tecnologias? Afinal, desde 2013 até hoje já tivemos três Mac OS, três versões de Windows, e um consumo muito maior de processadores e memórias RAM nesse período.

​continuo escrevendo num notebook; mais especificamente um netbook da asus, desses que já não se fabricam mais, com tela de 10 polegadas. uso o xubuntu porque desde que o unity chegou no ubuntu já não consigo mais usar aquele troço. sem contar que o xubuntu não exige demais do meu pobre computador.

a grande vantagem do linux é que eu não preciso me preocupar com manutenção de sistema e posso me concentrar em usar o sistema. não compro computador desde 2012 e enquanto meus computadores (tenho também um notebook dell com tela de 14 polegadas, mas esse não levei na viagem) continuarem funcionando, não vou me preocupar em trocar de aparelho. se depender das exigências do sistema operacional, usando o xubuntu, sei que isso não vai acontecer tão cedo.

Uso o writer do libreoffice e agora comecei a usar uma versão não oficial do scrivener pra linux, que funciona também lindamente.
às vezes anoto qualquer coisa no celular (no google keep ou no evernote, dependendo da disponibilidade de internet), ou em um caderninho, mas qualquer coisa mais longa precisa de um teclado de verdade pra ser escrita.
2) Falando de celular, acredito que você tenha um smartphone de qualquer espécie e qualidade, (se não, pulamos a questão), existem aplicativos que são salvadores para os dias de hoje? Existem sugestões e críticas após esse tempo na estrada?
​o que eu mais uso no meu android são os aplicativos básicos (gmail, twitter, whatsapp). gosto do instagram porque com ele faço uma espécie de registro fotográfico diário, e isso foi interessante enquanto estava viajando.

no primeiro ano e meio de viagem também usei muito um gerenciador de finanças chamado moneywise (a versão pro). também um aplicativo chamado detecta hotel, pra encontrar hospedagem (ele faz buscas combinadas em vários lugares que fazem reservas), já que nem sempre o hostelworld era suficiente e às vezes uma pousada era mais barata que um hostel. quando estava fazendo voltas pela Alemanha, Polônia, Eslováquia etc sempre baixava o aplicativo do sistema de transportes local. recomendo!

skype, viber e whatsapp sempre foram salvadores pela facilidade de se comunicar com as pessoas que estavam em outros países, e continuar se comunicando com os amigos que encontrei pelo caminho. dropbox, megasync e drive são outras dessas ferramentas importantes quando se está on the road. o problema é que nem sempre há internet disponível e nesse momento qualquer coisa na nuvem se torna praticamente inexistente.

essa é a grande frustração: hoje em dia, supõe-se que todos estão conectados 24 horas por dia. a maioria dos aplicativos e dos serviços funcionam apenas offline, e viajando a gente acaba ficando até mesmo uma semana inteira sem nem sentir o cheiro de uma conexão wifi (e com sinal EDGE no telefone celular).
pensando também nisso, posso dizer que o grande salvador foi um aplicativo chamado MAPS.ME, que disponibiliza offline mapas do open street maps. você baixa os mapas que quer usar e não precisa mais de internet pra saber onde está. funciona com o gps e faz planejamento de rotas também offline. já salvou minha vida muitas vezes.​​
3) Para os livros, acompanhei sua jornada com um Kobo, como foi sua relação com ele ao longo da sua jornada? Sei que quem tem a veia artística não substitui o prazer do papel, o tal do “book snifer”, mas você tem alguma crítica ou sugestão após esse período?
​​o Kobo é outro dos meus grandes salvadores!
​eu prefiro ler livro em papel, mas eu jamais terei tantos livros em papel quanto tenho no meu Kobo. eu jamais poderia levar na mochila a décima parte dos livros que tenho no Kobo. o leitor digital é PRÁTICO, e isso é o que importa. o conteúdo é o mesmo, seja no digital seja no papel. acontece que no papel é mais fácil encontrar passagens (principalmente se você tem uma memória visual, como eu, e se lembra do local exato na página em que determinada passagem estava) e folhear a esmo (o que é praticamente impossível num leitor digital). uma biblioteca física te deixa agarrar um livro, ler qualquer parte aleatória no meio e devolvê-lo à prateleira.

ainda isso eu faço, a meu modo, no Kobo. mas claro que não é a mesma coisa. ainda assim, não posso reclamar. o Kobo me permite ter acesso à leitura sem adicionar quilos à mochila que levo nas costas. quando toda sua vida está nas costas, não é pouca coisa.

4) Como é viajar com um punhado de eletrônicos nas costas? Houveram momentos de medo de perder tudo? Se não me engano, você chegou a ser roubada, certo? Como é viajar com algo que pode condensar tantos livros, artigos e materiais, e ao mesmo tempo, ser tão fácil de perder? Você tinha alguma rotina de backup, ou mantém?

​sempre fiz e sempre faço backup. sincronizo as coisas mais importantes com o dropbox. quando me levaram o computador, alguns pendrives, algum dinheiro, só perdi mesmo o computador, alguns pendrives, algum dinheiro. perdi as coisas e a configuração do sistema operacional, só isso. os arquivos de texto, por exemplo, estavam todos na nuvem, e as fotos estavam todas num disco externo, que não levaram porque sempre deixei esse disco na mochila grande, escondido atrás das tralhas e das roupas; o importante era sempre deixar o disco e o computador em lugares diferentes.

​ter COISAS, seja o que for, sempre é um estresse. a maioria das pessoas não tem coisa nenhuma. nunca me achei no direito de ter MAIS do que ninguém. e ainda assim preciso do computador, preciso da minha câmera. é parte do meu trabalho e da minha vida. mas também por isso nunca fiz questão de ter o melhor computador, a melhor câmera. como a maioria das minhas viagens foram por cidades pequenas, esse “medo” não era tão agressivo. o problema são as cidades grandes, a concentração de desigualdade social. nas cidades grandes, só tirava foto com o celular, por exemplo, porque não tinha vontade de ficar tomando precauções extra só por possuir uma porcaria eletrônica.

no mais, são coisas; com a devida precaução (os devidos backups), perder as coisas é um problema menor. é frustrante, claro, porque eu nunca tive MUITO e não tinha dinheiro pra repor coisa nenhuma (no caso do computador ganhei um usado logo em seguida; até hoje não uso mais pendrives), mas é parte do caminho. a nuvem está aí pra isso. a experiência é muito mais importante do que uma caixinha de circuitos.

(não confio na nuvem pra ter informação exclusivamente disponível nela, mas como ferramenta de backup ela faz muito bem o seu trabalho, enquanto não acontecer algum tipo de cataclismo que vá apagar todos os dados de todos os servidores e do seu computador ao mesmo tempo.)

5) Sobre livros agora, o quanto essa sua jornada irá influenciar suas obras? No livro “A última expedição” você narra uma jornada, física e e emocional que pai e filho vivem. O quanto suas viagens impactam nessa jornada, coincidem ou inspiraram o livro ou o livro à sua vida? Você acha que já há uma influência natural, ou é algo que sua mente via processar quando você criar suas raízes? E quando sai o próximo livro?

​a vida sempre influencia qualquer coisa que eu (ou qualquer outra pessoa) possa escrever.​ o livro “A última expedição” foi escrito depois de uma viagem similar que fiz pela Bolívia, em 2011.

o livro que estou escrevendo agora se passa em São Paulo, mais uma vez, mas tenho outros dois começados que foram inspirados por viagens (um se passa no litoral do Ceará e o outro na Argentina, numa jornada mui parecida com a minha que vai levar o protagonista de norte a sul do país). as histórias em si não tem nenhuma relação direta com minha viagem, mas o cenário e a experiência está por todos os lados, como não poderia deixar de ser.

por enquanto são só esses. mas é impossível não usar tudo isso quando escrevo, seja na criação de personagens, seja no uso dos cenários. é inegável que muito se dilui na memória; também por isso dou tanto valor às fotos que tirei. todo esse registro imagético sempre é uma maneira de voltar a lugares do passado e reviver sensações importantes.

o próximo livro foi escrito ainda em 2012 e já está nas mãos do editor, mas ainda não tem data pra sair. o editor anda muito ocupado! sejamos otimistas: deve sair logo. chama-se “Trégua” e é, tenho certeza, a melhor coisa que já escrevi.

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Para ver seus livros, e/ou adquirí-los: http://migre.me/sln0a
Para o blog da escritora: http://oliviamaia.net/
Artigo enviado por Emanuel Campos

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