Mundo Livre: teoria ou realidade?

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Fala galera! Segue mais um post do nosso polêmico colaborador Antônio Carlos Vasques. Leia e comente… você pode até tentar não comentar, mas sei que não vai conseguir… rs.

Há uns meses atrás experimentei uma distro com um kernel “livre”, onde os drivers não livres foram expurgados sem dó nem piedade. Terminei a instalação, dei o boot e tinha em minhas mãos um linux bonito, bem acabado, estável e livre, mas totalmente inútil.

Principalmente porque minha placa de rede wifi precisava de firmware proprietário com licença restritiva, cujo código-fonte não estava disponível. Mas devia contentar-me com tal situação, caso não desejasse entrar nos infernos do software não-livre.

E por esse pecado mortal, iria passar o resto de meus dias desconectado do mundo, se continuasse usando aquela distro. Estava ideologicamente livre mas só, incontestavelmente só. E esse era o preço a pagar pela minha liberdade?

Não seria nada demais se houvesse um driver aberto que eu pudesse usar, mas não havia. E pelo que pude pesquisar, ninguém estava fazendo nada a respeito. Para resolver aquele pequeno problema na minha máquina, teria de vender a alma sem maiores pudores filosóficos: então lasquei o tal firmware e deixei a filosofia de lado.

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Quem usa linux já se acostumou a decidir como seu sistema será, ao menos numa boa parte dele. Não fica a mercê de licenças de uso abusivas e tem uma boa certeza de que nada é feito sem seu conhecimento.

Mas uma coisa é certa: nunca teremos um mundo ideal onde tudo será aberto, acessível e modificável. Se quisermos ficar conectados no universo lá fora, teremos de aceitar a coexistência de várias modalidades de licenciamento e suas restrições.

É isso ou o isolamento, a morte. Até porque nossas comunidades não têm pernas para assumir todos os compromissos para um mundo perfeito, imaginado pelos brilhantes teóricos do software livre. Nem os escrevedores de código vão produzir linhas e linhas a perder de vista e deixar de sobreviver por falta do vil metal, fruto deste trabalho.

Elas se concentram nas principais ideias, projetos de envergadura que fazem a diferença: gerenciadores de janela, suíte de escritório, multimídia, redes etc, pois não dá para abraçar o mundo em que vivemos.

Console-se com o fato de que não o dominaremos, nem todos acatarão nosso modo de vida. Teremos de abaixar o tom de voz e aprender a conviver com “o inimigo”. O “ideal” seria um mundo livre, mas provavelmente nunca o será.

Também produzimos muita porcaria, muita burocracia inútil. Abandonamos projetos pelo meio porque não concordamos coma cor da meia do colega, ou o batom da presidente do grupo, ou porque o fim do mundo não chegou, ou simplesmente pelo mais antigo dos pecados: a cobiça.

Ora, somos seres humanos…

Foi muito tentador dizer que escreveríamos nossos próprios drivers e nos sentiríamos mais homens por causa disso. Mas tirando a propaganda, tem muito homem por aí que não escreve uma linha em C e nem por causa disso deixa de fazer um tremendo sucesso! Mas isso é assunto para outro blog, não este.

Na minha opinião, uma boa medida de convivência é estabelecermos nosso ideal de liberdade, onde podemos ou não ceder, criando um equilíbrio produtivo para todos os interessados em aproveitar o melhor dos mundos à disposição, com seus prós e contras, mas com um horizonte mais amplo do que teríamos concebendo o mundo sob um único ponto de vista.

Isso não é nada mais nada menos que a confirmação, nos tempos atuais, mais do que nunca, de que prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Artigo enviado por Antônio Carlos Vasques da Silva